No Deserto da Tentação

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Capítulo 8 — Uma ameaça ao reino de Satanás

Por ocasião do nascimento de Cristo, Satanás viu as planícies de Belém iluminadas pela brilhante glória de uma multidão de anjos celestiais. Ouviu o seu cântico: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na Terra entre os homens, a quem Ele quer bem.” 9 O príncipe das trevas viu os pastores maravilhados, cheios de temor, observando as planícies iluminadas. Tremiam diante da exibição de ofuscante glória que parecia penetrar nos seus sentidos. O próprio chefe rebelde tremeu ante a proclamação do anjo aos pastores: “Não temais: eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.”10 Tinha delineado com grande êxito um plano para arruinar os homens e tornara-se audacioso e poderoso. Controlara a mente e o corpo dos homens desde Adão até ao primeiro aparecimento de Cristo. Mas agora Satanás estava em dificuldade e alarmado pelo seu reino e sua vida. DT 32.3

Pelo cântico dos mensageiros celestiais, proclamando o advento do Salvador ao mundo caído, e o regozijo expresso neste grande evento, Satanás sabia que não lhe era reservada boa coisa. Um presságio negro se lhe abateu sobre a mente: o que a influência deste advento ao mundo poderia causar ao seu reino. Indagava se isto não era a vinda dAquele que contestaria o seu poder e destruiria o seu reino. Considerou a Cristo, desde o Seu nascimento, como rival. Excitou a inveja e o ciúme de Herodes para destruir a Cristo, insinuando que o seu poder e o seu reino estavam prestes a ser dados a Este novo Rei. Satanás imbuiu Herodes dos mesmos sentimentos e temor que perturbavam sua própria mente. Inspirou a intenção corrupta de Herodes, de matar todas as crianças de Belém, que tinham até dois anos de idade, plano este, pensava ele, que teria êxito em livrar a Terra do infante Rei. DT 33.1

Todavia, contra seus planos, Satanás vê um mais elevado poder operando. Anjos de Deus protegiam a vida do infante Redentor. José foi avisado em sonho, que fugisse para o Egito, encontrando asilo para o Redentor do mundo, numa terra pagã. Satanás O seguiu desde a infância até a juventude e da juventude até a vida adulta, cogitando meios e maneiras para desviá-Lo de Sua submissão a Deus, e dominá-Lo com suas sutis tentações. A imaculada pureza da infância, juventude e vida adulta de Cristo, que Satanás não podia manchar, aborrecia-o excessivamente. Todos os seus dardos e flechas de tentações caíam inofensivas diante do Filho de Deus. E quando ele viu que todas as suas tentações não resultavam em nada para demover a Cristo de Sua leal integridade, ou macular a impecável pureza do Jovem Galileu, ficou perplexo e terrivelmente enfurecido. Olhava para esse Jovem como um inimigo que ele mais receava e temia. DT 34.1

Esse deveria ser Aquele que andaria sobre a Terra com poder moral para suportar todas as suas tentações, que resistiria a todas as suas atrativas seduções para persuadi-Lo a pecar, e sobre quem ele não obteria nenhuma vantagem para separá-Lo de Deus. Tudo isto provocava e irritava sua majestade satânica. DT 34.2

A infância, juventude e vida adulta de João, que veio no espírito e poder de Elias para fazer uma obra de preparo do caminho para o Redentor do mundo, foi marcada por firmeza e poder moral. Satanás não pôde afastá-lo de sua integridade. Quando a voz do profeta foi ouvida no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”,11 Satanás temeu pelo seu reino. Sentiu que a voz, soando no deserto como som de trombeta, levava pecadores sobre seu controle a tremer. Viu que o seu poder sobre muitos estava quebrado. A intensidade do pecado foi revelada de tal maneira que os homens ficaram alarmados; e alguns, pelo arrependimento de seus pecados, encontraram o favor de Deus e obtiveram poder moral para resistir às suas tentações. DT 34.3

Ele estava presente quando Cristo Se apresentou a João para o batismo. Ouviu a voz majestosa ressoando através do Céu e ecoando pela Terra como estrépito de trovão. Viu os relâmpagos das nuvens dos céus e ouviu as respeitáveis palavras de Jeová: “Este é o Meu Filho amado, em quem Me comprazo.”12 Viu o resplendor da glória do Pai cobrindo a forma de Jesus, apontando assim à multidão Aquele a quem Ele reconhecia como Seu Filho, com inegável segurança. As circunstâncias relacionadas com a cena batismal despertaram o mais intenso ódio no peito de Satanás. Agora sabia com certeza que, se não pudesse dominar a Cristo, a partir desse tempo seu poder seria limitado. Compreendeu que a comunicação do trono de Deus significava que o Céu estava mais diretamente acessível ao homem. DT 35.1

Ao levar Satanás o homem a pecar, tinha esperanças de que a repugnância de Deus ao pecado O separaria para sempre do homem e quebraria o elo de ligação entre o Céu e a Terra. O abrir dos Céus em conexão com a voz de Deus dirigida a Seu Filho foi como um toque mortal para Satanás. Temeu que Deus estava agora mais disposto a unir o homem a Si mesmo e conferir-lhe poder para vencer suas artimanhas. E com este propósito Cristo veio das cortes reais para a Terra. Satanás estava bem ciente da posição honrosa que Cristo ocupava no Céu como Filho de Deus, o amado do Pai. Ao deixar o Céu e vir a este mundo como homem, isto o encheu de apreensão por sua segurança. Ele não podia compreender o mistério deste grande sacrifício em benefício do homem caído. Sabia que a avaliação do Céu excedia em muito o antegozo e apreciação do homem caído. O mais valioso tesouro do mundo, ele sabia, não se compara com o seu valor. Sendo que havia perdido, por causa de sua rebelião, todas as riquezas e puras glórias do Céu, estava determinado a ser vingativo, levando a humanidade, tanto quanto possível, a desvalorizar o Céu e a colocar as afeições nos tesouros terrestres. DT 36.1

Era incompreensível, para a alma egoísta de Satanás, que pudesse existir tão grande benevolência e amor para com uma raça enganada, que induzisse o Príncipe do Céu a deixar Seu lar e vir ao mundo mareado pelo pecado e pela maldição. Conhecia o inestimável valor das riquezas eternas que o homem desconhecia. Tinha experiência da pura satisfação, da paz, da exaltada santidade e ilimitado regozijo do lar celestial. Compreendia, antes de sua rebelião, a satisfação da completa aprovação de Deus. Já tivera uma completa apreciação da glória que envolvia o Pai e sabia que não havia limite ao Seu poder. DT 36.2

Satanás sabia o que tinha perdido. Agora temia que seu império sobre o mundo fosse contestado e quebrado seu poder. Sabia, pela profecia, que o Salvador fora predito e que Seu reino não seria estabelecido com triunfo terrestre e com honra e exibição mundanas. Sabia que as profecias antigas prediziam um reino que seria estabelecido pelo Príncipe do Céu sobre a Terra, a qual reclamava como seu domínio. Esse reino abarcaria todos os reinos do mundo e então seu poder e sua glória cessariam e ele receberia sua retribuição pelos pecados que havia introduzido no mundo e a miséria que havia trazido sobre o homem. Sabia que tudo o que concernia a sua prosperidade estava dependendo do seu êxito ou fracasso em dominar a Cristo com suas tentações no deserto. Trouxe sobre Cristo todo artifício e força de suas tentações poderosas, para demovê-Lo de Sua obediência. DT 37.1

É impossível ao homem conhecer a força das tentações de Satanás sobre o Filho de Deus. Cada tentação que parece tão aflitiva ao homem na sua vida cotidiana, tão difícil de ser resistida e dominada, foi trazida sobre o Filho de Deus em tão alto grau quanto a Sua excelência de caráter era superior à do homem caído. DT 37.2

Cristo foi tentado em todos os pontos como nós somos. Como representante do homem Ele Se aproximou de Deus nas provas e tentações. Enfrentou a força intensa de Satanás. Cristo experimentou as mais vis tentações e as venceu em favor do homem. É impossível que o ser humano seja tentado acima do que pode suportar enquanto se apóia em Jesus, o infinito Conquistador. DT 38.1