A Ciência do Bom Viver

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Capítulo 11 — A obra em favor dos intemperantes

Toda verdadeira reforma tem seu lugar na obra do evangelho, e tende ao reerguimento da alma a uma vida nova e mais nobre. A obra da temperança, especialmente, requer o apoio dos obreiros cristãos. Eles devem chamar a atenção para essa obra, tornando-a objeto de vivo interesse. Por toda parte devem apresentar ao povo os princípios da verdadeira temperança, e pedir assinaturas para o voto da mesma. Fervorosos esforços se devem fazer em favor dos que se acham escravizados aos maus hábitos. CBV 171.1

Há por toda parte uma obra a ser feita por aqueles que caíram devido à intemperança. Entre as igrejas, as instituições religiosas, e lares supostamente cristãos, muitos jovens estão seguindo o caminho da ruína. Por hábitos de intemperança, trazem sobre si mesmos a enfermidade, e pela ganância de obter dinheiro para pecaminosas transigências, caem em práticas desonestas. Arruínam a saúde e o caráter. Alienados de Deus, rejeitados pela sociedade, essas pobres pessoas se sentem sem esperança tanto para esta vida como para outra, por vir. O coração dos pais fica quebrantado. As pessoas falam desses extraviados como casos sem esperança; assim não os considera Deus. Ele compreende todas as circunstâncias que os têm tornado o que são, e os contempla com piedade. Essa é uma classe que demanda auxílio. Nunca lhes deis ocasião de dizer: “Ninguém se importa comigo.” CBV 171.2

Acham-se entre as vítimas da intemperança indivíduos de todas as classes e profissões. Pessoas de elevada posição, de notáveis talentos, de grandes realizações, têm cedido aos apetites a ponto de se tornarem incapazes de resistir à tentação. Alguns, que eram antes possuidores de fortuna, encontram-se sem lar, sem amigos, em sofrimento e miséria, enfermidade e degradação. Perderam o domínio de si mesmos. A menos que uma mão ajudadora lhes seja estendida, hão de cair mais e mais baixo. Aliada a essa condescendência consigo mesmo se acha, não somente um pecado moral, mas uma doença física. CBV 172.1

Muitas vezes, ao ajudar os intemperantes, devemos, como Cristo fazia tão frequentemente, atender primeiro a suas condições físicas. Necessitam alimento e bebida saudáveis, não estimulantes, roupas limpas, oportunidades de manter o asseio físico. Necessitam ser rodeados de uma atmosfera de salutar e enobrecedora influência cristã. Deve-se prover em toda cidade um lugar em que os escravos dos maus hábitos possam receber auxílio para quebrar as cadeias que os prendem. A bebida forte é considerada por muitos o único consolo na aflição; mas não será preciso que seja assim, se, em lugar de desempenhar o papel do sacerdote e do levita, os professos cristãos seguirem o exemplo do bom samaritano. CBV 172.2

Ao lidar com as vítimas da intemperança, cumpre-nos lembrar que não estamos tratando com pessoas de são juízo, mas com aqueles que, de momento, se acham sob o poder de um demônio. Sede pacientes e mansos. Não penseis na desagradável, repulsiva aparência, mas na preciosa vida para cuja redenção Cristo morreu. Ao despertar o bêbado para o sentimento de sua degradação, fazei quanto estiver ao vosso alcance para lhe mostrar que sois seu amigo. Não profirais uma palavra de censura ou de repugnância. É muito provável que a pobre pessoa se maldiga a si mesma. Ajudai-a a se erguer. Dirigi-lhe palavras que fortaleçam a fé. Procurai fortalecer todo bom traço em seu caráter. Ensinai-lhe a maneira de alcançar um nível mais elevado. Mostrai-lhe que é possível viver de modo a conquistar o respeito de seus semelhantes. Ajudai-a a ver o valor dos talentos que Deus lhe tem dado, mas que ela tem negligenciado desenvolver. CBV 172.3

Embora se haja a vontade depravado e enfraquecido, existe para ela esperança em Cristo. Esse lhe despertará no coração mais elevados impulsos e desejos mais santos. Animai-a a apoderar-se da esperança que se lhe apresenta no evangelho. Abri a Bíblia ao tentado e lutador, lendo-lhes repetidamente as promessas de Deus. Essas promessas serão para ele como as folhas da árvore da vida. Continuai pacientemente em vossos esforços, até que, com reconhecida alegria, a trêmula mão se apegue à esperança da redenção em Cristo. CBV 173.1

Deveis apegar-vos firmemente àqueles a quem buscais ajudar, do contrário jamais obtereis a vitória. Eles serão continuamente tentados para o mal. Serão repetidamente quase vencidos pelo intenso desejo da bebida forte; aqui e ali poderão cair; não cesseis, entretanto, por isso, os vossos esforços. CBV 173.2

Eles decidiram fazer um esforço para viver para Cristo; sua força de vontade, porém, acha-se enfraquecida, e devem ser cuidadosamente guardados pelos que cuidam das almas como quem por elas têm de dar contas. Eles perderam sua varonilidade, que devem reconquistar. Muitos têm de lutar contra fortes tendências hereditárias para o mal. Fortes desejos não naturais, impulsos sensuais, eis a herança que por nascimento receberam. Contra os mesmos devem ser cuidadosamente guardados. Interior e exteriormente, estão o bem e o mal em luta pelo domínio. Os que nunca passaram por tais experiências não podem conhecer o quase avassalador poder do apetite, ou o feroz conflito entre os hábitos de condescendência consigo mesmo e a decisão de ser temperante em todas as coisas. Essa batalha deve ser travada uma e muitas vezes. CBV 173.3

Muitos dos que são atraídos a Cristo não possuirão força moral para continuar a luta contra o apetite e a paixão. O obreiro não deve, no entanto, se desanimar por isso. São apenas os que foram salvos das maiores profundidades os que apostatam? CBV 173.4

Lembrai-vos de que não trabalhais sozinhos. Anjos ministradores se unem em serviço a todo o sincero filho e filha de Deus. E Cristo é o restaurador. O grande Médico mesmo Se acha ao lado dos fiéis obreiros, dizendo à alma arrependida: “Filho, perdoados estão os teus pecados.” Marcos 2:5. CBV 174.1

Muitos serão os párias que se apoderarão da esperança que lhes é apresentada no evangelho, e entrarão no reino do Céu, ao passo que outros que foram beneficiados com grandes oportunidades e grande luz, que não aproveitaram, serão deixados nas trevas exteriores. CBV 174.2

As vítimas de maus hábitos devem ser despertadas para a necessidade de fazer esforços por si mesmos. Outros podem desenvolver os mais fervorosos empenhos para erguê-los, a graça de Deus pode-lhes ser abundantemente oferecida, Cristo pode rogar, Seus anjos ministrar; tudo, porém, será em vão, a menos que eles próprios despertem para pelejar o combate em seu favor. CBV 174.3

As últimas palavras de Davi a Salomão, então um jovem, e que ia em breve receber a coroa de Israel, foram: “Esforça-te, ... e sê homem.” 1 Reis 2:2. A todo filho da humanidade, candidato a uma coroa imortal, dirigem-se estas palavras proferidas pela inspiração: “Esforça-te, ... e sê homem.” CBV 174.4

Os habituados a satisfazer às tendências naturais devem ser levados a ver e a sentir que é mister grande renovação moral, se se querem tornar homens. Deus os convida a despertar e, na força de Cristo, reconquistar a varonilidade que Deus lhes dera, e que foi sacrificada em pecaminosas condescendências. CBV 174.5

Sentindo o terrível poder da tentação, o arrastamento do desejo que leva à fraqueza, muito homem brada em desespero: “Não posso resistir ao mal.” Dizei-lhe que ele pode, que ele precisa resistir. Poderá haver sido derrotado uma e outra vez, mas não é necessário que seja sempre assim. Ele é fraco em força moral, dominado por hábitos de uma vida de pecado. Suas promessas e resoluções são como cordas de areia. A consciência das promessas não cumpridas e dos violados votos enfraquece-lhe a confiança na própria sinceridade, fazendo com que ele sinta que Deus não o pode aceitar, nem cooperar com os seus esforços. Não precisa, entretanto, desesperar. CBV 174.6

Os que põem em Cristo a confiança não devem ficar escravizados por nenhuma tendência ou hábito hereditário, ou cultivado. Em lugar de ficar subjugados em servidão à natureza inferior, devem reger todo apetite e paixão. Deus não nos deixou lutar com o mal em nossa própria, limitada força. Sejam quais forem nossas tendências herdadas ou cultivadas para o erro, podemos vencer, mediante o poder que Ele nos está disposto a comunicar. CBV 175.1