Testemunhos para a Igreja 4

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Seção 30 — Testemunho para a igreja

Capítulo 50 — Os servos de Deus

Deus escolheu Abraão como Seu mensageiro através do qual comunicaria luz ao mundo. A palavra de Deus veio a ele, não com o oferecimento de perspectivas lisonjeiras nesta vida, de elevado salário, ou de grande reconhecimento e honras mundanas. “Sai da tua terra e dentre a tua parentela e dirige-te à terra que Eu te mostrar” (Atos dos Apóstolos 7:3) foi a mensagem divina a Abraão. O patriarca obedeceu, “e saiu, sem saber para onde ia” (Hebreus 11:8), como portador da luz divina, a fim de manter o Seu nome lembrado na Terra. Ele abandonou seu país, sua casa, seus parentes e todas as relações amistosas ligadas a sua vida anterior, a fim de tornar-se peregrino e estrangeiro. T4 523.2

É freqüentemente mais essencial do que muitos percebem, que as associações anteriores devam ser interrompidas, a fim de que aqueles que falam “no lugar de Cristo” possam permanecer numa posição onde Deus possa educá-los e qualificá-los para Sua grande obra. Parentes e amigos muitas vezes têm uma influência que Deus vê que interferirá grandemente com as instruções que Ele determinou dar aos Seus servos. Sugestões serão feitas por aqueles que não estão em íntima ligação com o Céu que, se acatadas, afastarão de Sua santa obra aqueles que devem ser portadores de luz ao mundo. T4 523.3

Antes que Deus pudesse usá-lo, Abraão teve de separar-se de seus companheiros anteriores, para não ser controlado por influências humanas ou confiar no auxílio humano. Agora, que ele havia se ligado a Deus, devia habitar entre estranhos. Seu caráter precisava ser especial, diferente de todos os demais no mundo. Ele não podia sequer explicar seu modo de proceder, de maneira a ser compreendido por seus amigos, pois eles eram idólatras. As coisas espirituais precisam ser discernidas espiritualmente; conseqüentemente, seus motivos e ações estavam além da compreensão de seus parentes e amigos. T4 523.4

A obediência incondicional de Abraão foi um dos mais notáveis exemplos de fé e confiança em Deus encontrados no Registro Sagrado. Tendo apenas a simples promessa de que os seus descendentes possuiriam a terra de Canaã, sem a menor evidência externa, ele seguiu para onde Deus o conduziria, cumprindo sincera e integralmente as condições que lhe competiam, e confiando em que o Senhor fielmente cumpriria a Sua palavra. O patriarca foi para onde quer que Deus indicasse ser seu dever; atravessou o deserto sem temor; penetrou em nações idólatras com o único pensamento: “Deus falou; estou obedecendo à Sua voz; Ele me guiará e protegerá.” T4 524.1

Os mensageiros de Deus necessitam hoje exatamente da mesma fé e confiança que Abraão teve. Mas muitos que poderiam ser usados por Deus não avançam, ouvindo e obedecendo à Voz que é superior a todas as outras. A ligação com parentes e amigos, os hábitos e associações anteriores, muitas vezes têm tão grande influência sobre os servos de Deus, que Ele pode dar-lhes apenas pouca instrução, pode comunicar-lhes apenas pouco conhecimento sobre Seus propósitos; e freqüentemente após certo tempo os deixa de lado e chama outros em seu lugar, a quem prova e testa da mesma maneira. O Senhor faria muito mais por Seus servos se eles fossem totalmente consagrados a Ele, valorizando Seu serviço acima dos laços de parentesco e de todos os demais relacionamentos terrenos. T4 524.2

Os ministros do evangelho têm um trabalho sagrado. Têm uma mensagem solene de advertência para levar ao mundo — uma mensagem que será “cheiro de vida para a vida” ou de “morte para morte”. 2 Coríntios 2:16. São mensageiros de Deus ao ser humano; e nunca devem perder de vista a sua missão ou suas responsabilidades. Não são como os mundanos; não podem ser semelhantes a eles. Se desejarem ser fiéis a Deus, devem manter caráter santo, distinto. Se deixarem de relacionar-se com o Céu, estão em maior perigo do que outros e podem exercer uma influência mais forte na direção errada; pois Satanás tem o seu olhar constantemente sobre eles, esperando pelo desenvolvimento de alguma fraqueza, com a qual possa realizar um ataque bem-sucedido. E como ele exulta quando tem êxito; pois, quando alguém que é embaixador de Cristo não está vigiando, o grande adversário pode assegurar muitas almas para si mesmo através dessa pessoa. T4 524.3

Os que estão intimamente ligados a Deus talvez não sejam prósperos nas coisas desta vida; muitas vezes poderão ser severamente provados e afligidos. José foi difamado e perseguido porque preservou sua virtude e integridade. Davi, esse mensageiro escolhido por Deus, foi caçado como um animal de rapina por seus perversos inimigos. Daniel foi lançado numa cova de leões porque era sincero e inflexível em sua lealdade a Deus. Jó foi privado de suas posses terrenas, e tão afligido no corpo que sofreu a repulsa de seus parentes e amigos, mas preservou a integridade e a fidelidade a Deus. Jeremias falou as palavras que Deus pôs em sua boca, e o seu claro testemunho enfureceu de tal modo o rei e os príncipes, que foi lançado num poço asqueroso. Estêvão foi apedrejado por pregar a Cristo, e Este crucificado. Paulo foi preso, surrado com varas, apedrejado e finalmente condenado à morte porque era um mensageiro fiel para levar o evangelho aos gentios. O amado João foi banido para a ilha de Patmos por causa “da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus Cristo”. Apocalipse 1:2. T4 525.1

Esses exemplos de firmeza humana, na força do poder divino, são para o mundo um testemunho da fidelidade das promessas de Deus — de Sua permanente presença e graça mantenedora. Ao considerar esses homens humildes, o mundo não consegue discernir o seu valor moral para Deus. É uma obra de fé descansar calmamente em Deus na hora mais escura — embora severamente provados, e açoitados pelo vento, sentir que nosso Pai está no leme. Só o olhar da fé pode enxergar além das coisas do tempo e dos sentidos, para apreciar o valor das riquezas eternas. T4 525.2

O grande comandante militar conquista nações e abala os exércitos da metade do mundo, mas morre de desapontamento e no exílio. O filósofo que vagueia através do Universo, seguindo por toda a parte as manifestações do poder de Deus e deleitando-se em sua harmonia, muitas vezes deixa de contemplar nessas maravilhas a Mão que formou todas elas. “O homem que está em honra, e não tem entendimento, é semelhante aos animais, que perecem.” Salmos 49:20. T4 526.1

Nenhuma esperança de gloriosa imortalidade ilumina o futuro dos inimigos de Deus. Mas aqueles heróis da fé têm a promessa de uma herança de maior valor do que quaisquer riquezas terrenas — uma herança que satisfará os anseios da alma. Eles podem ser desconhecidos ao mundo e não reconhecidos por ele; são, porém, inscritos como cidadãos nos livros de registro do Céu. Excelsa grandeza, duradouro e eterno peso de glória será a recompensa final daqueles a quem Deus tornou herdeiro de todas as coisas. T4 526.2

Ministros do evangelho devem tornar a verdade de Deus o tema de estudo, meditação e conversação. A mente que se demora muito na revelada vontade de Deus ao homem tornar-se-á forte na verdade. Os que lêem e estudam com sincero anseio pela luz divina, quer sejam pastores quer não, logo descobrirão nas Escrituras a beleza e a harmonia que lhes cativarão a atenção, elevarão os pensamentos e lhes darão inspiração e vigor de raciocínio que serão poderosos para persuadir e converter almas. T4 526.3

Há perigo de que os pastores que professam crer na verdade presente se satisfaçam em apresentar a teoria somente, enquanto a própria alma não sente o seu poder santificador. Alguns não têm o amor de Deus no coração suavizando, moldando e enobrecendo a existência. O salmista declara o seguinte sobre o homem bom: “Tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.” Salmos 1:2. Ele se refere a sua própria experiência, e exclama: “Oh! Quanto amo a Tua lei! É a minha meditação em todo o dia!” Salmos 119:97. “Os meus olhos anteciparam-me às vigílias da noite, para meditar na Tua palavra.” Salmos 119:148. T4 526.4

Nenhum homem está qualificado a permanecer no púlpito sagrado, a menos que sinta a influência transformadora da verdade de Deus sobre a própria alma. Então, e só então, pode por preceito e exemplo representar corretamente a vida de Cristo. Muitos, porém, em seus esforços, exaltam a si mesmos em vez de ao Mestre; e as pessoas são convertidas ao pastor, em vez de sê-lo a Cristo. T4 526.5

Estou triste por saber que alguns que atualmente pregam a verdade presente são na realidade homens não convertidos. Não estão ligados a Deus. Têm uma religião racional, mas não têm coração convertido; e esses são os mesmos que têm mais confiança em si mesmos e suficiência própria; e esta auto-suficiência se colocará no caminho de obterem aquela experiência que é essencial para torná-los eficientes obreiros na vinha do Senhor. Gostaria de poder despertar aqueles que alegam serem atalaias sobre os muros de Sião, para perceberem sua responsabilidade. Devem despertar e assumir posição mais elevada por Deus; pois as almas estão perecendo por causa de sua negligência. Devem ter aquela sincera devoção a Deus que os levará a ver como Deus vê, aceitar Suas palavras de advertência e dar o aviso àqueles que estão em perigo. O Senhor não ocultará da fiel sentinela a Sua verdade. Aqueles que cumprem a vontade de Deus conhecerão Sua doutrina. “Os sábios entenderão”; mas “os ímpios procederão impiamente, e nenhum dos ímpios entenderá.” Daniel 12:10. T4 527.1

Disse Jesus a Seus discípulos: “Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração.” Mateus 11:29. Insto com os que aceitaram a posição de instrutores para que primeiro se tornem humildes discípulos e sempre continuem sendo alunos na escola de Cristo, a fim de receber do Mestre lições de mansidão e humildade de coração. Humildade de espírito, combinada com diligente atividade, resultará na salvação de pessoas tão ternamente adquiridas pelo sangue de Cristo. O pastor pode entender e acreditar na teoria da verdade, e ser capaz de apresentá-la a outros; mas isto não é tudo o que dele se requer. “A fé sem obras é morta.” Tiago 2:20. Ele necessita da fé que atua pelo amor e purifica a alma. A viva fé em Cristo porá toda ação da vida e toda emoção da alma em harmonia com a verdade e a justiça de Deus. T4 527.2

A irritabilidade, a exaltação de si mesmo, o orgulho, a paixão e qualquer outro traço de caráter dessemelhante de nosso santo Modelo precisam ser vencidos; e então a humildade, a mansidão e a sincera gratidão a Jesus por Sua grande salvação fluirão continuamente da fonte pura do coração. A voz de Jesus deve ser ouvida na mensagem que provém dos lábios de Seu embaixador. T4 528.1

Devemos ter um ministério convertido. A eficiência e poder que acompanham o ministério verdadeiramente convertido fariam os hipócritas de Sião tremer e os pecadores temer. O padrão da verdade e santidade está se arrastando no pó. Se aqueles que dão os solenes avisos de advertência para este tempo compreendessem sua responsabilidade para com Deus, veriam a necessidade de fervorosa oração. Quando as cidades se aquietavam no sono da meia-noite, quando todos os homens tinham ido para a própria casa, Cristo, nosso Exemplo, dirigia-se ao Monte da Oliveiras, e ali, entre as árvores protetoras, passava a noite inteira em oração. Aquele que estava, Ele mesmo, sem mancha de pecado — um reservatório de bênção; cuja voz fora ouvida na quarta vigília da noite pelos atemorizados discípulos no mar tempestuoso, em bênção celestial; e cuja palavra podia chamar os mortos para fora de suas sepulturas — era O que fazia súplicas com fortes clamores e lágrimas. Ele orava, não por Si mesmo, mas por aqueles a quem viera salvar. Ao tornar-Se um suplicante, buscando da mão de Seu Pai suprimentos novos de força, e saindo refrigerado e revigorado como substituto do homem, Ele Se identifica com a humanidade sofredora, e lhe dá um exemplo da necessidade de oração. T4 528.2

Sua natureza estava sem mancha de pecado. Como Filho do homem, Ele orava ao Pai, mostrando que a natureza humana requer todo o apoio divino que o homem possa obter para ser fortalecido para o dever e preparado para a prova. Como o Príncipe da Vida, Ele tinha poder com Deus, e prevaleceu para o bem de Seu povo. O Salvador, que orou pelos que não sentiam necessidade de oração, e que chorou pelos que não sentiam necessidade de lágrimas, agora está diante do trono, para receber e apresentar a Seu Pai as petições daqueles por quem Ele orou na Terra. O exemplo de Cristo é para ser seguido por nós. A oração é uma necessidade em nosso trabalho pela salvação de almas. Só Deus pode promover o crescimento da semente que semeamos. T4 528.3

Falhamos muitas vezes porque não compreendemos que Cristo está conosco, por Seu Espírito, tão verdadeiramente como quando, nos dias de Sua humilhação, andou visivelmente na Terra. O passar do tempo não efetuou nenhuma modificação em Sua promessa de despedida aos apóstolos, ao retirar-Se deles e ser elevado para o Céu: “Eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos.” Mateus 28:20. Ele ordenou que houvesse uma sucessão de homens cuja autoridade proviesse dos primeiros mestres da fé para a contínua pregação de Cristo e Este crucificado. O grande Mestre delegou poder a Seus servos, que têm “este tesouro em vasos de barro”. 2 Coríntios 4:7. Cristo dirigirá a obra de Seus embaixadores se eles aguardarem Sua instrução e orientação. T4 529.1

Os pastores que são verdadeiramente representantes de Cristo serão homens de oração. Com ardor e fé que não serão negados, eles pleitearão com Deus para que sejam fortalecidos e encorajados para o dever e a provação, e para que seus lábios sejam santificados pelo toque da brasa viva tirada do altar a fim de falarem as palavras de Cristo ao povo. “O Senhor Jeová me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer, a seu tempo, uma boa palavra ao que está cansado. Ele desperta-me todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça como aqueles que aprendem.” Isaías 50:4. T4 529.2

Cristo disse a Pedro: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça.” Lucas 22:31, 32. Quem pode avaliar o resultado das orações do Redentor do mundo? Quando Cristo vir o fruto do penoso trabalho de Sua alma e ficar satisfeito, então será visto e compreendido o valor de Suas fervorosas orações enquanto Sua divindade foi revestida com humanidade. T4 529.3

Jesus rogou, não apenas por um só, mas por todos os Seus discípulos: “Pai, aqueles que Me deste quero que, onde Eu estiver, também eles estejam comigo.” João 17:24. Seu olhar atravessou o escuro véu do futuro e leu a história da vida de cada filho e filha de Adão. Ele sentiu os fardos e as tristezas de toda alma açoitada pela tempestade, e aquela fervorosa oração, além de Seus discípulos vivos, incluiu todos os Seus seguidores até o fim do tempo. “Eu não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em Mim.” João 17:20. Sim; essa oração de Cristo nos abrange. Devíamos ser confortados pelo pensamento de que temos um grande intercessor no Céu, apresentando nossas petições a Deus. “Se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo.” 1 João 2:1. Na hora da maior necessidade, quando o desânimo subjugaria a alma, é então que o olhar vigilante de Jesus vê que precisamos de Seu auxílio. A hora da necessidade do homem é o momento da oportunidade de Deus. Quando falha todo o apoio humano, Jesus vem em nosso auxílio, e Sua presença dissipa as trevas e dispersa a nuvem de tristeza. T4 529.4

Em seu pequeno barco sobre o Mar da Galiléia, em meio à tempestade e à escuridão, os discípulos lutavam duramente para alcançar a praia, mas viram que os seus esforços não tinham êxito. Ao serem dominados pelo desespero, Jesus foi visto caminhando sobre as águas espumejantes. Mesmo a presença de Cristo não foi inicialmente discernida, e o seu terror aumentou, até que a voz dEle dizendo “Sou Eu, não temais”, desfez os seus temores, e lhes deu esperança e alegria. Então, quão voluntariamente os pobres e aterrorizados discípulos cessaram os seus esforços, e confiaram tudo ao Mestre. T4 530.1

Este impressionante incidente ilustra a experiência dos seguidores de Cristo. Quão freqüentemente nós nos agarramos aos remos como se nossa força e sabedoria fossem suficientes, até que descobrimos serem inúteis os nossos esforços. Então, com mãos trementes e as forças enfraquecidas, submetemos a obra a Jesus, e confessamos que somos incapazes de realizá-la. Nosso misericordioso Redentor Se compadece de nossa fraqueza; e quando, em resposta ao clamor de fé, assume a obra que lhe pedimos que cumpra, quão facilmente Ele realiza aquilo que nos parecia tão difícil. T4 530.2

A história do antigo povo de Deus nos fornece muitos exemplos encorajadores de oração eficaz. Quando os amalequitas vieram para atacar o acampamento de Israel no deserto, Moisés sabia que o seu povo não estava preparado para o confronto. Ele enviou Josué com um grupo de soldados ao encontro do inimigo, enquanto ele próprio, com Arão e Hur, tomaram posição sobre uma colina de onde podiam ver o campo de batalha. Ali o homem de Deus apresentou o caso ao Único que era capaz de lhes dar a vitória. Com mãos erguidas para o céu, Moisés orou fervorosamente pelo êxito dos exércitos de Israel. Observou-se que enquanto suas mãos estavam erguidas, Israel prevalecia contra o inimigo; mas quando pela fadiga ele permitia que descessem, Amaleque prevalecia. Arão e Hur sustentaram as mãos de Moisés, até que a vitória, plena e completa, se volveu para o lado de Israel, e seus inimigos foram expulsos do campo. T4 530.3

Este exemplo deve ser uma lição para todo o Israel até o fim do tempo, de que Deus é a força de Seu povo. Quando Israel triunfou, Moisés estava estendendo suas mãos para o céu, intercedendo em seu favor; assim, quando todo o Israel de Deus prevalece, é por causa do Todo-poderoso ter assumido o seu caso e lutado as suas batalhas por eles. Moisés não pediu nem acreditou que Deus derrotaria seus inimigos enquanto Israel permanecesse inativo. Ele dispõe todas as suas forças e as envia tão bem preparadas quanto suas condições o permitiam, e então leva toda a questão a Deus em oração. Moisés sobre a montanha está pleiteando com Deus, enquanto Josué com os seus corajosos seguidores está embaixo, fazendo o seu melhor para enfrentarem e expulsarem os inimigos de Israel e de Deus. T4 531.1

A oração que procede de um coração confiante e fervoroso é a oração eficaz que “pode muito em seus efeitos”. Tiago 5:16. Deus nem sempre responde às nossas orações como esperamos, pois podemos não pedir o que seria para o nosso mais elevado bem; mas no Seu infinito amor e sabedoria Ele nos dará as coisas que mais necessitamos. Feliz o pastor que tem um fiel Arão e Hur para fortalecer suas mãos quando se tornam cansadas, e sustentá-las por meio de fé e oração. Tal apoio é uma ajuda poderosa aos servos de Cristo em Sua obra, e freqüentemente fará a causa da verdade triunfar gloriosamente. T4 531.2

Depois da transgressão de Israel por fazer o bezerro de ouro, Moisés de novo pleiteia com Deus em favor de seu povo. Ele tem algum conhecimento a respeito daqueles que foram colocados sobre seu cuidado; conhece a perversidade do coração humano e compreende as dificuldades com as quais deve contender. Mas aprendeu por experiência que para ter influência sobre o povo precisa antes ter poder com Deus. O Senhor lê a sinceridade e o propósito altruísta do coração de Seu servo e condescende em conversar com esse frágil mortal, face a face, como um homem fala com seu amigo. Moisés lançou a si mesmo e todo o seu fardo sobre Deus e livremente derramou sua alma perante Ele. O Senhor não reprova o Seu servo, mas Se curva para ouvir suas súplicas. T4 532.1

Moisés tem um profundo senso de sua indignidade e sua desqualificação para a grande obra à qual Deus o chamara. Ele pleiteia com intenso fervor para que o Senhor vá com ele. A resposta vem: “Irá a Minha presença contigo para te fazer descansar.” Êxodo 33:14. Mas Moisés não sente que deve parar aqui. Ele já recebera muito, mas anseia aproximar-se ainda mais de Deus, a fim de obter maior segurança de Sua permanente presença. Ele conduzira o fardo de Israel; levara o esmagador peso de responsabilidade; quando o povo pecou, ele sofreu mortificante pesar, como se ele próprio fosse culpado; e agora pesa sobre sua alma o senso dos terríveis resultados se Deus deixar Israel em sua dureza de coração e impenitência. Eles não hesitariam em matar Moisés, e pela própria imprudência e perversidade logo cairiam presas de seus inimigos, desonrando assim o nome de Deus diante dos pagãos. Moisés faz sua petição com tal fervor que a resposta vem: “Farei também isto, que tens dito; porquanto achaste graça aos Meus olhos; e te conheço por nome.” Êxodo 33:17. T4 532.2

Agora, naturalmente, poderíamos esperar que o profeta cessasse de suplicar; mas não. Animado pelo sucesso, ele se aventura a ir ainda para mais perto de Deus, com santa familiaridade que vai além de nossa compreensão. Agora ele faz um pedido que nenhum ser humano fizera antes: “Rogo-Te que me mostres a Tua glória.” Êxodo 33:18. Que petição de um homem finito, mortal! Mas ele é repelido? Reprova-o Deus por sua presunção? Não; ouvimos as graciosas palavras: “Eu farei passar toda a Minha bondade por diante de ti.” Êxodo 33:19. T4 532.3

A glória não velada de Deus nenhum homem podia contemplar e viver; mas a Moisés é assegurado que contemplará o máximo da glória divina que possa suportar nessa presente condição mortal. Aquela mão que fez o mundo, que sustenta as montanhas nos seus lugares, toma este homem do pó — esse homem de poderosa fé — e misericordiosamente o cobre numa fenda da rocha, enquanto a glória de Deus e toda a Sua bondade passam perante ele. Podemos maravilhar-nos de que a “magnífica glória” refletida da Onipotência brilhou na face de Moisés com tal esplendor que as pessoas não podiam contemplá-la? O aspecto de Deus estava sobre ele, fazendo-o parecer como um dos anjos resplandecentes do trono. T4 533.1

Essa experiência, acima de tudo a segurança de que Deus ouviria a sua oração, e que a presença divina o acompanharia, foi de maior valor para Moisés como líder do que o aprendizado no Egito ou todas as suas conquistas na ciência militar. Nenhum poder terreno, habilidade ou instrução pode superar o lugar da presença imediata de Deus. Na história de Moisés podemos ver quão íntima comunhão com Deus é privilégio do homem usufruir. Para o transgressor é coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo. Mas Moisés não temia estar sozinho com o Autor daquela lei que fora proferida com tão tremenda grandeza no Monte Sinai; pois a sua alma estava em harmonia com a vontade de seu Criador. T4 533.2

A oração é o abrir do coração a Deus como a um amigo. Os olhos da fé discernirão a Deus muito próximo, e o suplicante pode obter preciosa evidência do amor e cuidado divinos por ele. Mas por que será que tantas orações nunca são atendidas? Declara Davi: “A Ele clamei com a minha boca, e Ele foi exaltado pela minha língua. Se eu atender à iniqüidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá.” Salmos 66:17, 18. O Senhor nos dá a promessa: “E buscar-Me-eis e Me achareis quando Me buscardes de todo o vosso coração.” Jeremias 29:13. Refere-Se Ele, ainda, a alguns que “não clamaram a Mim com seu coração”. Oséias 7:14. Tais petições são orações formais, tão-somente culto de lábios, que o Senhor não aceita. T4 533.3

A oração que Natanael ofereceu enquanto estava debaixo da figueira, veio-lhe de um coração sincero, e foi ouvida e respondida pelo Mestre. Cristo lhe disse: “Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo.” João 1:47. O Senhor lê o coração de todos e entende os seus motivos e propósitos. “A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos.” Tiago 5:16. Ele não será vagaroso em ouvir aqueles que Lhe abrem o coração, não se exaltam, mas sinceramente sentem a sua grande fraqueza e indignidade. T4 534.1

Há necessidade de oração — oração totalmente sincera, fervorosa, angustiante — oração como a que Davi fez quando exclamou: “Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por Ti, ó Deus!” Salmos 42:1. “Eis que tenho desejado os Teus preceitos.” Salmos 119:40. “Tenho desejado a Tua salvação.” Salmos 119:174. “A minha alma está anelante e desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo.” Salmos 84:2. “A minha alma está quebrantada de desejar os Teus juízos em todo o tempo.” Salmos 119:20. Este é o espírito da oração perseverante, espírito possuído pelo rei salmista. T4 534.2

Daniel orou a Deus, não exaltando a si mesmo ou reivindicando qualquer mérito; “ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende-nos e opera sem tardar; por amor de Ti mesmo, ó Deus meu”. Daniel 9:19. Isso é o que Tiago chama oração eficaz e fervorosa. De Cristo é dito: “E, posto em agonia, orava mais intensamente.” Lucas 22:44. Em que contraste com esta intercessão feita pela Majestade do Céu se acham as orações fracas, insensíveis, que são feitas a Deus! Muitos se satisfazem com o culto de lábios, e bem poucos têm sincero, fervoroso e afetuoso anelo de Deus. T4 534.3

A comunhão com Deus comunica à alma um íntimo conhecimento de Sua vontade. Mas muitos que professam a fé não sabem o que é verdadeira conversão. Não têm experiência e comunhão com o Pai através de Jesus Cristo, e nunca sentiram o poder da graça divina para santificar o coração. Orar e pecar, pecar e orar, a vida deles está cheia de maldade, engano, inveja, ciúmes e amor-próprio. As orações desse grupo são uma abominação a Deus. A oração verdadeira ocupa as energias da alma e afeta a vida. Aquele que assim desabafa suas necessidades perante Deus, sente o vazio de tudo o mais, debaixo do céu. “Senhor, diante de Ti está todo o meu desejo, e o meu gemido não Te é oculto”, disse Davi. Salmos 38:9. “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus.” Salmos 42:2. “Quando me lembro disto, dentro de mim derramo a minha alma.” Salmos 42:4. T4 534.4

Ao crescer os nossos números, planos mais amplos devem ser estabelecidos para atender à crescente demanda dos tempos; mas não vemos aumento especial de piedade fervorosa, de simplicidade cristã e sincera devoção. A igreja parece contente em apenas dar os primeiros passos na conversão. Está mais pronta para o trabalho ativo do que para humilde devoção — mais pronta para empenhar-se em serviço religioso exterior do que para a obra interior do coração. A meditação e a oração são negligenciadas pelo burburinho e exibição. A religião deve começar com o esvaziar do coração e sua purificação, e deve ser nutrida pela oração diária. T4 535.1

O firme progresso de nossa obra e nossas crescentes instalações estão enchendo de satisfação e orgulho o coração e a mente de muitos de nosso povo, que tememos tomarão o lugar do amor de Deus na alma. A atividade intensa na parte mecânica, mesmo na obra de Deus, pode ocupar a mente de tal maneira que a oração seja negligenciada, e a importância própria e a auto-suficiência, tão prontas para impor os seus meios, tomarão o lugar da verdadeira virtude, mansidão e humildade de coração. O zeloso clamor pode ser ouvido: “Templo do Senhor, templo do Senhor é este.” Jeremias 7:4. “Vai comigo e verás o meu zelo para com o Senhor.” 2 Reis 10:16. Mas onde estão os que assumem responsabilidades? Onde estão os pais e mães em Israel? Onde estão aqueles que têm no coração preocupação pelas almas, e que têm cuidadosa simpatia pelos semelhantes, prontos para colocar-se em qualquer posição a fim de salvá-los da ruína eterna? T4 535.2

“Não por força, nem por violência, mas pelo Meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.” Zacarias 4:6. “Vós sois”, diz Cristo, “a luz do mundo.” Mateus 5:14. Que responsabilidade! Há necessidade de jejum, humilhação e oração com respeito a nosso decadente zelo e enfraquecida espiritualidade. O amor de muitos está se esfriando. Os esforços de muitos de nossos pregadores não são como deviam ser. Quando alguns que têm falta do Espírito e poder de Deus entram em um novo campo, começam a denunciar outras denominações, pensando que podem convencer as pessoas acerca da verdade por apresentar as incoerências das igrejas populares. Pode parecer necessário em algumas ocasiões falar dessas coisas, mas em geral somente cria preconceito contra a nossa obra e fecha os ouvidos de muitos que poderiam de outra maneira ouvir a verdade. Se esses instrutores estivessem intimamente ligados a Cristo, teriam a sabedoria divina para saber como aproximar-se do povo. Não se esqueceriam tão cedo das trevas e do erro, da ira e do preconceito, que os mantêm longe da verdade. T4 535.3

Se esses instrutores trabalhassem com o espírito do Mestre, resultados muito diferentes se seguiriam. Com mansidão e paciência, bondade e amor, mas com decidido fervor, buscariam conduzir aquelas almas errantes a um Salvador crucificado e ressurreto. Quando isto for feito, veremos a Deus impressionando o coração dos seres humanos. Diz o grande apóstolo: “Porque nós somos cooperadores de Deus.” 1 Coríntios 3:9. Que trabalho para os pobres mortais! Somos providos de armas espirituais para combater “o bom combate da fé” (1 Timóteo 6:12); mas alguns parecem ter tirado da armadura do Céu somente os trovões. Por quanto tempo devem existir tais defeitos? T4 536.1

Enquanto em meio ao interesse religioso, alguns negligenciam a parte mais importante da obra. Deixam de visitar e de familiarizar-se com aqueles que mostraram interesse em apresentar-se noite após noite para ouvirem a explicação das Escrituras. Conversação sobre assuntos religiosos e fervorosa oração com tais pessoas no momento apropriado, podem fazer muitas almas tomarem a direção certa. Os pastores que negligenciam o seu dever nesse aspecto não são verdadeiros pastores do rebanho. Exatamente quando devem estar mais ativos em visitar, conversar e orar com esses interessados, alguns estarão ocupados escrevendo desnecessariamente longas cartas a pessoas distantes. Oh, que estamos fazendo pelo Mestre! Quando terminar o tempo de graça, quantos verão as oportunidades que negligenciaram em prestar serviço ao seu querido Senhor que por eles morreu! E mesmo aqueles que foram considerados mais fiéis verão quanto mais poderiam ter feito, não tivesse sua mente sido desviada pelo ambiente mundano. T4 536.2

Apelamos aos arautos do evangelho de Cristo a que nunca desanimem no trabalho, nunca considerem como além do alcance da graça de Deus os pecadores mais endurecidos. Eles podem aceitar a verdade por amor a ela, e se tornar o sal da Terra. Aquele que move o coração dos seres humanos assim como a água dos rios é movida, pode levar o coração mais egoísta e endurecido pelo pecado a entregar-se a Cristo. É alguma coisa difícil demais para Deus? “A palavra que sair da Minha boca”, diz Ele, “não voltará para Mim vazia, mas fará o que Me apraz e prosperará naquilo para que a designei.” Isaías 55:11. T4 537.1

Deus não colocará Sua bênção sobre aqueles que são negligentes, egoístas e amantes da comodidade — que não assumirão responsabilidades em Sua causa. O “bem está” será pronunciado somente sobre aqueles que fizerem o bem. Todos os seres humanos deverão ser recompensados “segundo as suas obras”. Desejamos um ministério ativo — homens de oração, que lutarão com Deus como Jacó, dizendo: “Não Te deixarei ir, se me não abençoares.” Gênesis 32:26. Para obter a coroa do vencedor, devemos retesar todos os nervos e exercitar todas as faculdades. Nunca poderemos ser salvos na inatividade. Ser um preguiçoso na vinha do Senhor é renunciar a todo título de recompensa dos justos. T4 537.2